Imunização na primeira infância: por que não podemos perder a cultura da vacinação?
Publicado em 13/03/2026 03:14, por Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

No início de 2026, os Estados Unidos suspenderam a recomendação de 6 das 17 vacinas indicadas para imunização de crianças. Não fazem mais parte da lista imunizantes contra gripe, hepatites A e B, rotavírus, entre outros. Além delas, a vacina contra a Covid-19 já havia sido removida do calendário vacinal do país.
Especialistas se preocupam que esse movimento possa alimentar dúvidas quanto à eficácia das vacinas, indo em direção contrária ao que dizem as evidências científicas. Quando uma criança é vacinada, toda a comunidade é protegida. A imunização desde a primeira infância significa proteção não apenas para quem está começando a vida, como também para todas as pessoas que estão à sua volta.
Assim como ocorre em outras áreas – como educação, segurança ou habitação – a proteção da saúde de bebês e crianças pequenas deve ser um pacto coletivo. A vacinação reduz a circulação de vírus, diminuindo as chances de que doenças se proliferem ou voltem a aparecer.
“Quando um país com a influência e a dimensão dos Estados Unidos permite a queda na sua imunização infantil, retirando seis vacinas obrigatórias do seu calendário, o impacto não fica retido em solo americano. Ele ressoa como um alerta sanitário global que atinge também o Brasil”, afirmou Eduardo Jorge da Fonseca Lima, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), em artigo na Folha de S. Paulo.
O Brasil possui um robusto calendário de vacinação infantil, que tem contribuído positivamente com a saúde pública há décadas. Devido à ampla disponibilidade de vacinas, distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o país erradicou a poliomielite, eliminou a rubéola congênita e reduziu drasticamente mortes infantis por doenças que hoje parecem distantes, mas que continuam circulando em outros países do mundo.
Essas conquistas não foram obra do acaso: são resultado de altas coberturas vacinais sustentadas ao longo do tempo. Manter a cultura de vacinação, portanto, é importante para a proteção individual e comunitária, mas também em níveis transnacionais. Os vírus não conhecem fronteiras e a diminuição da imunização em um único país pode significar o enfraquecimento da proteção de saúde de toda a população mundial.
Contexto da cobertura vacinal no Brasil
Na primeira infância, vacinar é garantir que o corpo aprenda a se defender no momento mais sensível da vida. É reduzir desigualdades, assegurar direitos e proteger os bebês e as crianças pequenas de adoecerem por causas que já sabemos como prevenir.
O Anuário VacinaBR, relatório estatístico de vacinação no Brasil 2000 – 2023, destaca que nas últimas cinco décadas, as vacinas tiveram um papel central na redução da mortalidade infantil, representando 40% da queda global dessa estatística. “Desde 1974, os imunizantes evitaram 154 milhões de mortes, 95% delas entre crianças menores de 5 anos”, aponta o documento desenvolvido pelo Instituto Questão de Ciência (IQC).
No entanto, a realidade da cobertura vacinal no Brasil tem sido desafiadora. Dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde no ano passado apontaram queda nos índices vacinais. Apenas duas vacinas obrigatórias para recém-nascidos alcançaram mais de 95% de cobertura por meio do Programa Nacional de Imunizações.
A BCG – voltada à proteção de formas graves de tuberculose em bebês – atingiu 96% da cobertura. O imunizante contra Hepatite B, alcançou 95%. Em 2024, estes números eram de 98% e 97%, respectivamente.
Essa redução não é uma realidade só do Brasil. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 2,7 milhões de crianças em todo o mundo continuam sem vacinação ou com doses em atraso, quando comparados aos dados do período pré-pandemia de Covid-19.
Mesmo com as dificuldades, o país conseguiu reverter parte da queda de vacinação apresentada entre 2019 e 2021. O Ministério da Saúde afirmou que 13 das 16 vacinas preconizadas para a infância tiveram um aumento de cobertura entre 2022 e 2023.
Calendário de imunização do SUS: gratuito e universal
O Brasil possui um dos melhores calendários vacinais do mundo: gratuito, universal, cientificamente atualizado e com proteção contra mais de 20 doenças. Desde que nascem, as crianças já têm o direito de ser imunizadas pelo SUS.
A primeira das vacinas, a BCG, é dada logo após o nascimento, e é um método de prevenção tanto contra formas graves de tuberculose, quanto como efeito protetor contra a hanseníase.
Entre os dois e os seis meses de vida, o país disponibiliza gratuitamente as vacinas contra poliomielite, difteria, tétano, coqueluche, doenças pneumocócicas invasivas, gastrenterite viral (diarreia e vômito) e doenças meningocócicas – meningite, encefalite, entre outras.
A partir dos seis meses, crianças brasileiras têm acesso à vacina contra a Covid-19, febre amarela e tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). Confira o calendário completo de vacinação infantil desenvolvido pelo Ministério da Saúde aqui. O calendário proposto também observa a importância do cuidado com as gestantes, garantindo que os primeiros mil dias de vida sejam seguros e saudáveis. Saiba mais aqui.
O impacto da vacinação na primeira infância é profundo: apesar de parecer um gesto simples, sua proteção vai além da infância e garante saúde ao longo de toda a vida. Ela reduz o risco de sequelas neurológicas e respiratórias, de hospitalizações recorrentes e de doenças crônicas na vida adulta.
A ciência não deixa dúvidas: as vacinas são seguras, eficazes e salvam vidas. Manter viva a cultura da vacinação é um compromisso com a ciência, com as infâncias e com o futuro comum que estamos construindo.