Crianças e internet segura: como proteger a primeira infância em ambientes digitais?

Pesquisas apontam que crianças na primeira infância acessam a internet cada vez mais cedo. Como postergar e proteger a presença delas no universo digital?

Published on 03/02/2026 07:04, by Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Menina sentada em brinquedo de madeira em um gramado, sorrindo durante uma brincadeira ao ar livre. Post internet segura.

A presença massiva de telas no cotidiano das crianças pequenas, principalmente as que estão na primeira infância, representa um dos principais desafios para famílias ao redor do mundo.

Contudo, já estão cientificamente comprovados os impactos do acesso precoce a telas no desenvolvimento de bebês e crianças, com atrasos cognitivos e de linguagem, dificuldade de atenção e regulação emocional, maior sedentarismo, dependência digital, entre outros. 

Em uma sociedade permeada por dispositivos eletrônicos, fazer com que as infâncias estejam fora das telas é cada vez mais difícil. O Dia da Internet Segura é um momento propício, portanto, para refletir também a respeito da proteção e da segurança das crianças no universo digital. 

Respeitando os tempos das infâncias 

Quando se trata do acesso à internet, as crianças pequenas também estão chegando lá cada vez mais cedo. A última edição da TIC Kids Online, pesquisa desenvolvida pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), mostrou que ao menos 28% das crianças e adolescentes brasileiros acessaram a internet pela primeira vez antes dos 6 anos – ou seja, ainda na primeira infância. 

De acordo com a pesquisa “Panorama da Primeira Infância: o que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e pelo Datafolha, 78% das crianças brasileiras de 0 a 3 anos já são expostas diariamente a telas. Esse número é ainda maior (94%) no caso de crianças de 4 a 6 anos. 

Na contramão do que indicam estes números, a Sociedade Brasileira de Pediatria preconiza que, até os dois anos, não sejam oferecidos nenhum tipo de telas às crianças. Para outras idades, a entidade recomenda: 

  • – Limite de uma hora por dia, sempre sob supervisão, para crianças de 2 a 5 anos.
  • – Uma ou duas horas por dia, também com acompanhamento de adultos, para crianças de 6 a 10 anos. 

Os impactos e os riscos para a primeira infância

Quanto mais cedo crianças pequenas tiverem acesso a telas e internet, maiores são os riscos e impactos em sua saúde. Como são fontes de estímulos rápidos, intensos, frequentes e complexos, as telas podem gerar dificuldades de aprendizado, de socialização e de atenção, afastando as crianças de brincadeiras e interações fundamentais para seu pleno desenvolvimento.

O olho no olho ou o toque, vividos unicamente no mundo real, desempenham papel significativo na vida das crianças e não devem ser substituídos por longas horas na internet.

Uma mãe lê para seu filho, que segura um livro deitado na cama. Ilustra matéria de campanha de distribuição de livros realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e Instituto Mauricio de Souza.

Na primeira infância, os riscos associados ao acesso precoce à internet vão além do tempo de exposição e incluem a presença de conteúdos impróprios para a idade, a publicidade direcionada e a coleta indiscriminada de dados pessoais. Bebês e crianças pequenas ainda não possuem repertório cognitivo, emocional ou crítico para compreender, filtrar ou se proteger dessas dinâmicas, o que amplia sua vulnerabilidade no ambiente digital.

Estratégias de marketing e de persuasão comercial podem influenciar hábitos, desejos e comportamentos desde muito cedo, enquanto a coleta e o armazenamento de dados desde os primeiros anos de vida levantam preocupações sobre privacidade, segurança e uso futuro dessas informações.

Por outro lado, é preciso proteger também as crianças do compartilhamento frequente e indiscriminado de suas imagens na internet, fenômeno conhecido como Sharenting – quando os adultos responsáveis publicam exageradamente fotos, vídeos e informações sobre bebês e crianças nas redes sociais. Com o tempo, publicações inofensivas podem revelar dados sensíveis, criar um rastro digital permanente e expor crianças a usos indevidos da sua imagem, inclusive fora do contexto em que foram compartilhadas.

Protegendo a primeira infância na internet

É fundamental garantir que as infâncias sejam vividas de maneira lúdica, segura e propícia ao desenvolvimento integral. O incentivo ao brincar livre na primeira infância é uma das principais estratégias, por exemplo, para afastar bebês e crianças pequenas das telas. 

“O desafio não é simplesmente desligar as telas, mas construir com as crianças uma relação mais equilibrada com o tempo, o corpo e o afeto. Não podemos esquecer que, para algumas famílias, o celular pode atuar como uma rede de apoio, uma distração para que a mãe ou cuidadora possa realizar outras tarefas. Não podemos julgar essa mãe, mas oferecer alternativas que substituam isso”, afirma Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. 

Uma nova publicação intitulada “Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais” feita pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) trouxe indicações de como os adultos podem atuar nesse quesito, apontando desde ações individuais – como priorizar interações reais com as crianças – até efeitos mais amplos, como cobrar e acompanhar o que o poder público tem feito na área. 

O documento sugere cuidados gerais como:

  • – Não usar dispositivos e mídias digitais no quarto isoladamente
  • – Não usar dispositivos durante as refeições
  • – Adotar a mediação parental para monitoramento de tempo de uso e exposição a conteúdos
  • – Estimular atividades alternativas de brincar e esportivas
  • – Apoiar legislações que regulam publicidade direcionada à infância no ambiente digital
  • – Promover campanhas nacionais e formação de profissionais para conscientização sobre riscos do uso precoce de telas visando orientação às famílias

Amparo na legislação para uma internet segura

Apesar de não apontar diretamente a primeira infância, a lei 15.211/25, sancionada em setembro de 2025 pelo governo federal, aponta caminhos para garantir a segurança de crianças na internet. 

Popularmente chamada de “ECA Digital”, em referência ao Estatuto da Criança e do Adolescente, a nova legislação traz obrigações para serviços digitais, redes sociais, aplicativos e jogos. Ela reforça a necessidade de que os adultos e as grandes plataformas acompanhem as crianças e se responsabilizem pela segurança delas também no ambiente online. 

A implementação da verificação de idade, por exemplo, é um dos mecanismos previstos pela lei. Essa medida pode dificultar o acesso de crianças muito pequenas a diferentes plataformas online sem a supervisão de adultos, ou até mesmo a conteúdos impróprios para sua faixa etária. 

Além da regulação e monitoramento das plataformas online, é preciso incentivar ainda a mediação dos cuidadores em relação às telas e à internet. Na vida de crianças pequenas, a supervisão é fundamental. Não apenas em relação aos conteúdos consumidos, mas também às dinâmicas de interatividade de cada plataforma e aplicativo. 

Ferramentas de controle parental, que permitem aos responsáveis monitorar  e definir o que pode ser acessado nos dispositivos são essenciais para a garantia da segurança e proteção das infâncias na internet. Esse controle permite aos responsáveis um acompanhamento mais próximo do que é consumido, além de delimitar tempo de uso e quais aplicativos poderão ser baixados. 

Confira outras implicações do ECA Digital na primeira infância aqui

Os riscos e impactos do acesso precoce à internet reforçam a importância da mediação de adultos, de marcos regulatórios adequados e de políticas públicas que assegurem a proteção integral dos direitos das crianças também no contexto digital. A promoção de uma internet segura para a primeira infância é tecida a muitas mãos. Ela depende de ações conscientes e engajadas, que aproxime bebês e crianças de uma infância segura e saudável.

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