Literatura perde espaço para o uso de telas na primeira infância, aponta pesquisa da OCDE sobre crianças brasileiras
Levantamento internacional conduzido pela OCDE mostrou que mais da metade das famílias brasileiras raramente lê para crianças que estão na primeira infância
Published on 27/05/2026 03:40, by Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal

Ler para e com uma criança ajuda na criação de vínculos, no desenvolvimento cognitivo e também no entendimento das emoções. A primeira infância, uma janela preciosa de oportunidades, funciona como um solo fértil para que essas diferentes habilidades surjam e se fortaleçam.
A leitura nessa fase da vida é, portanto, não apenas um momento de contação de histórias, mas de estimulação da criatividade, da capacidade de socialização e de outros benefícios cognitivos.
Quando as famílias leem em voz alta para crianças, há efeitos positivos no desenvolvimento de linguagem, na memória e na capacidade de atenção, como mostrou um estudo recente publicado na revista de medicina PubMed.
Por outro lado, o acesso a dispositivos eletrônicos no começo da vida tem uma série de impactos nocivos comprovados pela ciência. Os efeitos ocorrem justamente em áreas onde a leitura é benéfica: o excesso no uso de telas pode causar a diminuição de atenção, problemas no desenvolvimento de linguagem e também na memória.
Os dados, contudo, mostram um cenário em que as crianças na primeira infância estão mais afastadas da literatura no dia a dia, enquanto ficam cada vez mais próximas de jogos, conteúdos e plataformas digitais.
Join Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (International Early Learning and Child Well-being Study – IELS), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e viabilizado no Brasil por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, mostrou que apenas 14% das famílias brasileiras participantes da pesquisa liam para crianças ao menos uma vez por semana. Em outros países do mundo essa porcentagem é de 54%.
Entre famílias com nível socioeconômico baixo, a situação é ainda mais grave: somente 9% delas lêem regularmente para as crianças. Entre as famílias de nível socioeconômico alto, essa porcentagem chega a 24%.
Primeira infância e telas
Com relação às telas, o contexto apresentado pelo IELS foi outro: 50,4% das crianças brasileiras usam dispositivos digitais em casa todos os dias, de acordo com seus responsáveis e cuidadores. Esse número representa quase 4% a mais que a média internacional.
De acordo com o IELS, o uso diário de telas também esteve associado a menores níveis de aprendizagem. As crianças que mais utilizavam os dispositivos tiveram desempenhos inferiores, sobretudo em literacia e numeracia emergentes – habilidades e conhecimentos que antecedem a alfabetização formal e primeiras noções de matemática, respectivamente.
“A hipótese que está acontecendo é: a criança que está dedicada ao celular, ela está deixando de vivenciar outras atividades que poderiam ser mais promotoras do seu desenvolvimento. Sobretudo porque o uso que está sendo feito do celular não é para atividades educativas, é mais para passar tempo. Isso, de fato, está interferindo no aprendizado e no desenvolvimento da criança”, afirma Marina Fragata Chicaro, diretora de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo.
A recente pesquisa “ Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida ”, desenvolvida pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e pelo Datafolha, mostrou que crianças entre 0 e 2 anos passam em média 2 horas por dia diante das telas.
A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que crianças nessa faixa etária não tenham contato com telas. Entre 2 e 5 anos, o limite recomendado é de até 1 hora por dia e dos 6 aos 10, entre 1 e 2 horas.
Aprendizagens em casa na primeira infância
As interações e os estímulos que as crianças recebem em casa são importantes ferramentas de aprendizado e pilares para seu desenvolvimento pleno. Brincadeiras, conversas sobre emoções, contações de história, entre outras ações, são atividades que promovem e fortalecem capacidades fundamentais, em diferentes dimensões do desenvolvimento.
Os cuidadores entrevistados no IELS responderam sobre a frequência de alguns estímulos ao aprendizado. 47% dos respondentes indicaram que realizam atividades sobre as letras do alfabeto, oferecendo esse tipo de estímulo às crianças entre 3 e 7 dias da semana. Mas ir à biblioteca, por exemplo, é uma atividade feita apenas por 2% dos respondentes, considerando o mesmo período de tempo (95% responderam que não levam nunca ou menos de uma vez na semana).
Enquanto isso, o uso de dispositivos eletrônicos para atividades não educativas segue em números muito altos. O estudo mostrou que apenas 19% dos cuidadores e responsáveis realizam atividades educativas em computadores, tablets ou celulares com as crianças, em uma frequência de 3 ou mais dias por semana.
Esse uso de dispositivos eletrônicos, não mediado por adultos e não associado a possíveis aprendizagens, coloca em risco interações no ambiente familiar que são estruturantes para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e cognitivas.
Investir em atividades que sejam promotoras do desenvolvimento integral das crianças, como o contato com livros desde o começo da vida, requer intencionalidade das famílias e cuidadores. Ao decidir pela leitura ao invés do uso não mediado de tecnologias digitais, cria-se possibilidades de aprendizados mais significativos e de melhores resultados para as crianças ao longo de toda a sua trajetória de aprendizagem.
Sobre o IELS
O IELS foi desenvolvido pela OCDE em meados da década de 2010, surgindo da necessidade de países disporem de dados comparáveis sobre a primeira infância. A primeira aplicação oficial ocorreu em 2018, envolvendo a Inglaterra (Reino Unido), a Estônia e os Estados Unidos. Atualmente, o estudo está em seu segundo ciclo (IELS 2025), que expandiu o alcance geográfico para incluir o Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda e Malta, além da permanência da Inglaterra.
No Brasil, o estudo é apoiado por um consórcio de instituições, liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que inclui B3 Social, Colibri Capital, Fundação Lemann, Fundação Lia Maria Aguiar, Instituto Beja, Instituto Tecendo Infâncias, Itaú Social, Perfin Wealth Management e Serviço Social da Indústria (Sesi).
Amostra e metodologia
No Brasil, o estudo foi realizado nos estados do Ceará, Pará e São Paulo, seguindo cinco fases principais: adesão (2022), adaptação cultural e aprovação ética (2023), pré-teste e treinamento (2024), coleta de dados (2025) e análise com divulgação (2026).
Os pesquisadores treinados visitaram as escolas; cada criança realizou quatro atividades curtas (até 15 minutos cada) em tablets com áudios pré-gravados, de forma lúdica e adaptativa (as perguntas se ajustavam ao nível de resposta da criança) para garantir uma experiência acolhedora. Professores, pais ou responsáveis preencheram questionários com informações sobre cada criança, que compuseram a avaliação.